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A geração mais conectada talvez seja a mais solitária do Brasil
Publicado em 17/07/2026 09:25
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Renata Rivetti, pesquisadora da Ciência da Felicidade

Nunca tivemos tantos recursos para nos comunicar, nem estivemos tão próximos por meio da tecnologia e ainda assim, nunca foi tão comum encontrar jovens emocionalmente exaustos, inseguros e profundamente solitários.

Os números divulgados pelo Mapa da Felicidade Real dos Brasileiros 2026, desenvolvido pela pesquisadora em Ciência da Felicidade Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia, confirmam aquilo que muitos profissionais da saúde mental observam diariamente nos consultórios: a geração que herdará o futuro do país é, paradoxalmente, a que demonstra menor satisfação com a própria vida. O estudo ouviu 1.500 brasileiros de todas as regiões do país entre 20 de fevereiro e 1º de março de 2026, com com recorte social, econômico, comportamental, racial e de gênero.

À primeira vista, parece um contrassenso.

Vivemos uma época em que os jovens possuem mais acesso à informação, liberdade de escolha e oportunidades de desenvolvimento do que muitas gerações anteriores. No entanto, a abundância de possibilidades parece ter sido acompanhada por um crescimento igualmente expressivo da ansiedade, da autocobrança e da sensação permanente de inadequação.

Na psicanálise, sabemos que o sofrimento não nasce apenas da falta e que ele também pode surgir do excesso. Excesso de estímulos, de comparações, expectativas e de escolhas.

Hoje, um adolescente ou um jovem adulto desperta e, antes mesmo de olhar para si, já está olhando para centenas de vidas aparentemente perfeitas. Em poucos minutos, consome imagens de sucesso, riqueza, beleza, produtividade e felicidade editadas para parecerem reais. O cérebro registra essas referências como parâmetro, enquanto o inconsciente transforma comparações em sentimentos de fracasso.

Não é coincidência que mais de 77% dos jovens entrevistados afirmem comparar suas vidas com as de outras pessoas nas redes sociais e que mais de 70% relatem sentir tristeza após esse consumo.

A comparação constante destrói algo essencial para o desenvolvimento humano, que é aa percepção do próprio valor e cria uma corrida sem linha de chegada, pois  sempre haverá alguém aparentemente mais bonito, mais rico, mais produtivo ou mais feliz.  Quem vive tentando alcançar um ideal inalcançável passa a acreditar que nunca é suficiente.

A pesquisa também revela outro dado preocupante, já quase metade dos jovens afirma que o trabalho é fonte de infelicidade. Esse resultado merece uma reflexão importante. Não estamos diante de uma geração preguiçosa, como alguns discursos insistem em afirmar, mas estamos diante de jovens que desejam encontrar sentido naquilo que fazem. Eles cresceram ouvindo que poderiam ser tudo o que quisessem. Ao chegar ao mercado de trabalho, encontram jornadas exaustivas, relações frágeis, lideranças despreparadas e ambientes que ainda tratam saúde mental como um tema secundário.

Como afirma Renata Rivetti: "O trabalho continua sendo uma dimensão central da vida, mas deixou de ser apenas uma fonte de renda. Os jovens buscam propósito, desenvolvimento, pertencimento e saúde mental. Quando essas necessidades não são atendidas, o impacto emocional aparece muito cedo na trajetória profissional."

Outro aspecto da pesquisa talvez seja ainda mais inquietante, mostra que uma parcela significativa dos jovens afirma não ter ninguém com quem contar.  Como psicanalista, considero esse dado um dos mais graves, ainfal o ser humano nasce e se desenvolve na relação com o outro e nossa identidade é construída no vínculo, no acolhimento, na escuta e no pertencimento. Quando essas conexões enfraquecem, cresce o sentimento de vazio e nenhum algoritmo é capaz de substituir a experiência emocional de um abraço, de uma conversa verdadeira ou da presença de alguém que simplesmente permaneça ao nosso lado.

Renata Rivetti resume esse alerta com precisão ao afirmar: "A juventude deveria representar energia, construção de projetos e descoberta de possibilidades. Quando justamente esse grupo relata níveis menores de satisfação com a vida, menos apoio e maior sofrimento cotidiano, estamos diante de um sinal importante sobre a forma como nossa sociedade está funcionando."

Talvez estejamos educando jovens extremamente preparados para produzir, mas pouco preparados para lidar com frustrações, capazes de administrar aplicativos complexos, mas com dificuldade para administrar emoções, conectados o tempo inteiro, mas cada vez mais distantes de si mesmos.  Isso não significa demonizar a tecnologia. O problema nunca foi a ferramenta.  O desafio está no uso que fazemos dela e, principalmente, no espaço que deixamos de ocupar na vida real.

Precisamos recuperar aquilo que sustenta a saúde emocional, que são as relações humanas de qualidade, convivência entre gerações, momentos sem telas, ambientes escolares que valorizem habilidades socioemocionais, famílias que conversem mais e empresas que compreendam que produtividade e bem-estar não são conceitos opostos.

Quando cuidamos da saúde mental dos jovens, não estamos apenas prevenindo transtornos psicológicos, estamos formando líderes mais conscientes, profissionais mais criativos, pais e mães mais presentes, empresas mais humanas e uma sociedade mais saudável. Como lembra Renata Rivetti: "Cuidar do bem-estar dos jovens não é proteger uma geração. É investir na capacidade que ela terá de inovar, colaborar, liderar e construir relações mais saudáveis no futuro." A pergunta que fica é simples, mas urgente. Se aqueles que irão construir o Brasil de amanhã já chegam à vida adulta tão cansados emocionalmente, que país estamos construindo hoje?

Talvez a resposta não esteja em ensinar nossos jovens que coragem não é parecer perfeito, é aprender a viver de forma autêntica, criar vínculos verdadeiros e descobrir que felicidade não nasce da comparação, mas da possibilidade de sermos quem realmente somos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG
 
 
 
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