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"Estamos no meio de um tsunami": Psiquiatra alerta vício em bets
Publicado em 28/07/2026 10:22
Notícias
Reprodução/TV Cultura
Hermano Tavares, psiquiatra entrevistado do Roda Viva

Referência nacional no estudo e tratamento da dependência em jogos de azar, o psiquiatra e professor Hermano Tavares é fundador e coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da USP, serviço pioneiro criado ainda nos anos 1990 no combate à ludopatia no país.

Em entrevista nesta segunda-feira (27) ao programa Roda Viva, o especialista da USP abordou o avanço acelerado das apostas onlin  e no Brasil, alertando que o mecanismo neurobiológico das bets ativa o cérebro da mesma forma que drogas como álcool e cigarro.

O psiquiatra ressalta que o serviço especializado em ludopatia criado por ele no final dos anos 1990 já atendia a uma "primeira onda", à época dos caça-níqueis e bingos.

O cenário atual, impulsionado pelas apostas online e pela grande exposição publicitária, é classificado por ele como uma "segunda onda" muito mais grave, definindo o momento como o "meio de um tsunami".

Cassino no bolso

Tavares enfatiza que o indivíduo não precisa mais sair de casa e está muito mais rápido para apostar. O usuário pode jogar no próprio quarto, no ambiente de trabalho ou em uma pausa rápida no banheiro para "fazer uma fezinha", pois o cassino está virtualmente na palma da mão, "a dois cliques de distância ou à distância do braço até o bolso da calça".

A facilidade de acesso em escala populacional expõe diretamente um maior número de pessoas vulneráveis, sobrecarregando a busca por tratamento médico e psiquiátrico.

A mente e o hábito

Tavares explica que tanto o álcool quanto a aposta funcionam como formadores de hábito.

"Apostar ativa o sistema nervoso central através de um mecanismo psicológico idêntico ao de substâncias como álcool, tabaco ou outras drogas. Por essa razão, a aposta não é um "produto ordinário", já que o próprio ato de apostar gera vontade de apostar ainda mais."explica, o especialista

A Ilusão do "Jogo Responsável"

O psiquiatra contesta a ideia tradicional de "jogo responsável", comparando-a com avisos de "beba com moderação" nas campanhas de bebidas alcoólicas.

Ele destaca que tais slogans acabam delegando e terceirizando a responsabilidade do problema inteiramente para o consumidor, eximindo quem promove ou vende.

O especialista define a expressão "jogo/aposta responsável" como uma contradição e reforça que apostar é brincar com dinheiro e qualquer brincadeira com impacto financeiro deixa de ser algo inofensivo.

"Quem quer ser verdadeiramente responsável não aposta; e quem deseja ser menos irresponsável deve apostar pouco"afirma Tavares

Responsabilidade Tripla

O psiquiatra defende que a responsabilidade em relação às apostas deve ser compartilhada por três partes:

Apostador:  Pela regulação e consciência individual;
Estado: Responsável por informar a população, prover tratamento na rede pública e regulamentar a atividade;

Indústria do Jogo (Provedor):  Responsável por não promover o jogo como fonte de renda/ganho financeiro e por retirar das plataformas mecanismos induzentes, como a falsa percepção de controle sobre os resultados.

 

 

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