Descobrir há quanto tempo um objeto foi feito ou quando uma população morou em certo lugar não é uma tarefa simples. Na arqueologia, diferentes técnicas podem ser usadas para calcular a idade de objetos, restos humanos, sedimentos e outros vestígios que as sociedades deixaram para trás. O método escolhido depende do material encontrado e, principalmente, das condições em que ele foi preservado.
Em entrevista ao iG, a arqueóloga e professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), Verônica Wesolowski, explicou que existem duas formas principais de descobrir a idade de uma descoberta.
A primeira é a datação relativa, que permite saber se algo é mais antigo ou mais recente em comparação com outro achado, e a segunda é a datação absoluta, que permite estimar uma idade em anos.
Apesar do nome, a datação absoluta também não significa que os pesquisadores consigam descobrir um ano exato. Na maioria dos casos, o resultado que se chega é um intervalo de tempo.
Cecília Bastos/Usp Imagens
Limpeza de fragmentos de ossos
Como saber o que veio primeiro?
Antes de tentar descobrir quantos anos tem uma descoberta, os arqueólogospodem observar a posição em que ela foi encontrada. Essa é uma das formas mais antigas de entender a sequência de acontecimentos em um sítio arqueológico. O método é chamado de estratigrafia e analisa as diferentes camadas de terra e sedimentos acumuladas ao longo do tempo.
Conforme eu vou escavando esse sítio e, portanto, me aprofundando no terreno, no solo, eu também vou usualmente me aprofundando no tempo.Verônica Wesolowski, arqueóloga e professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Geralmente, isso significa que um objeto encontrado em uma camada mais profunda tende a ser mais antigo que outro acima dele. O mesmo raciocínio pode ser usado em pinturas rupestres. Se uma pintura foi feita sobre outra, por exemplo, a que está por cima é considerada mais recente.
O problema é que esse método não mostra quanto tempo existe entre os as duas descobertas.
Ela pode ser 1.000 anos ou 1 minuto mais antiga.Verônica Wesolowski, arqueóloga e professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Outro desafio é que alguns objetos podem continuar sendo fabricados durante muito tempo. Verônica citou como exemplo pratos com a decoração conhecida como Willow, que apresenta desenhos azuis e pássaros. O padrão existe há mais de 200 anos e ainda é usado atualmente.
Então, se eu quebrar esse prato e jogar fora aqui no quintal de casa, ele tem dois dias ou ele tem 200 anos? Verônica Wesolowski, arqueóloga e professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Por isso, observar apenas o tipo de objeto nem sempre é suficiente para encontrar sua verdadeira idade.
Marcos Santos/USP Imagens
Exposição do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE)
Carbono-14 trouxe datas mais precisas
A arqueologia passou a contar com uma ferramenta muito mais específica a partir da década de 1950, com o carbono-14.
A técnica pode ser usada em materiais que um dia fizeram parte de organismos vivos, como carvão, madeira e ossos. Enquanto estão vivos, os organismos absorvem carbono e, depois da morte, deixam de absorver o elemento e começa um processo natural chamado decaimento radioativo, quando o elemento vai desaparecendo aos poucos.
A chamada meia-vida do carbono-14 é de 5.730 anos, ou seja, esse é o tempo necessário para que metade da quantidade inicial dele suma. Ao medir quanto carbono-14 ainda existe no objeto, os pesquisadores conseguem fazer uma estimativa com mais precisão de sua idade.
Segundo Verônica, o método possibilita trabalhar com segurança com materiais de aproximadamente 50 mil a 60 mil anos.
Bastos/Jornal da USP
Detalhe de restos animais de sítios arqueológicos sendo analisados
Mesmo assim, o resultado da datação precisa passar por uma etapa de calibração. Isso acontece porque a quantidade de carbono na atmosfera mudou ao longo da história. Por isso, uma data estimada pela técnica do carbono-14 não pode ser imediatamente considerada a correta.
Os pesquisadores usam curvas de calibração para corrigir esse resultado. Essas curvas são feitas, entre outras formas, com informações dos anéis de crescimento das árvores, que registram as mudanças no ambiente ao longo dos anos.
É por isso que os arqueólogos costumam apresentar uma data calibrada com alta probabilidade de segurança, geralmente como um intervalo, e não como um ano específico.
Então, a gente chegar a um ano específico não é possível. O que a gente chega é a um intervalo de anos.Verônica Wesolowski, arqueóloga e professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Uma análise pode indicar uma idade de 5.000 anos com uma margem de mais ou menos 30 anos. O resultado, portanto, não significa que o material tenha exatamente 5.000 anos. Isso acontece porque toda medição tem uma margem de incerteza. Para a arqueologia, porém, esse intervalo pode ser suficiente para responder perguntas importantes.
Carbono-14 costuma ser a primeira opção
Quando os pesquisadores encontram uma boa amostra orgânica e conseguem relacioná-la com segurança ao contexto arqueológico, o carbono-14 costuma ser a primeira opção.
Além de ser muito usado, o carbono-14 pode ser mais barato e rápido quando a análise é feita em laboratórios comerciais. Mas a escolha depende sempre do que foi preservado.
Os arqueólogos escolhem as amostras considerando tanto o material quanto o contexto em que ele foi encontrado. A análise, porém, é feita em laboratórios especializados, que podem ser acadêmicos ou comerciais, em um equipamento chamado espectrômetro de massa.
A análise é destrutiva, ou seja, parte do material é consumida durante o processo. Por isso, a escolha da amostra precisa ser cuidadosa. Em alguns casos, o vestígio disponível pode ser raro ou ter grande importância histórica e arqueológica.
Cecília Bastos/Usp Imagens
Escudo de guerra do acervo MAE
E quando o carbono 14 não funciona?
Nem sempre existe material orgânico em condições adequadas para a análise. Em ambientes tropicais, por exemplo, a preservação dos ossos pode ser mais difícil. Muitos solos brasileiros são ácidos e podem comprometer a conservação do colágeno. Quando um osso não tem colágeno suficiente, ele pode não fornecer uma amostra adequada para a datação por carbono-14.
Uma das alternativas é a datação por urânio-tório, que pode ser usada em materiais formados por minerais carbonáticos.
A técnica pode alcançar aproximadamente 500 mil anos e se baseia na transformação natural do urânio em tório ao longo do tempo.
O urânio pode ser perdido ou adicionado ao material depois que ele foi enterrado. Por isso, os pesquisadores também precisam analisar os resíduos que estão ligados à amostra.
Outros métodos
Outra técnica é a luminescência opticamente estimulada, usada principalmente para calcular a idade aproximada de sedimentos e de grãos minerais, como os de quartzo. A técnica permite descobrir quando esses grãos foram expostos à luz solar pela última vez.
Enquanto ficam enterrados, os minerais do solo acumulam energia na forma de elétrons por causa da radiação natural do ambiente. Quando são expostos novamente à luz, esses elétrons são liberados. A quantidade dessa luz emitida pode ser medida em laboratório.
Quanto mais intenso ele for, mais antigo é aquele solo. Há mais tempo ele está sem receber luz solar.Verônica Wesolowski, arqueóloga e professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Outro método é a termoluminescência. Nesse caso, a técnica considera o aquecimento pelo qual a argila, por exemplo, passou quando um objeto de cerâmica foi produzido.
Essas técnicas podem ser úteis combinadas, pois nem sempre é possível datar um objeto em si, então o contexto em que ele foi achado auxilia nas buscas por pistas.
USP Imagens/Letícia Cristina Correa e Zanettini Arqueologia
Sítio Morumbi
Imagine que, durante uma escavação, os pesquisadores encontrem uma fogueira ligada a diferentes objetos. Nesse caso, eles podem analisar os carvões produzidos pela queima.
No caso de artefatos de pedra, por exemplo, o mineral usado para produzir a peça pode ser muito mais antigo que a ocupação humana estudada. Por isso, os arqueólogos procuram outros materiais relacionados ao objeto ou analisam o sedimento em que ele foi encontrado.
O contexto é fundamental para que a gente gere datações válidas.Verônica Wesolowski, arqueóloga e professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
A datação ajuda a descobrir, por exemplo, qual ocupação de um sítio aconteceu primeiro, quanto tempo separou diferentes grupos que passaram por uma região e em que período determinado objeto ou vestígio foi utilizado.
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