Sala central de dados da qualidade do ar da Cetesb.
No inverno paulista, sem chuva, com ar seco e com baixa umidade, o cenário favorece a concentração de poluentes na atmosfera. Neste período de estiagem e durante todo o ano, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) conta com estações de monitoramento de ar e acompanhamento das quantidades de gases e material particulado, que são nocivos à saúde.
Se você já caminhou pela Avenida Paulista, deve ter visto a qualidade atual do ar sendo mostrada em telas luminosas. Os dados para definir se o ar está bom, moderado, ruim ou muito ruim são coletados por 63 estações medidoras automáticas e 22 manuais, espalhadas por todo o estado.
Essas 85 instalações, que sabem qual a qualidade do ar, fazem medições automáticas em intervalos predeterminados. O medidor coleta uma amostra de ar, analisa sua composição e fornece o resultado em tempo real, de acordo com a porcentagem de gases e pequenas partículas que podem se acumular nos pulmões a cada respiração, causando problemas de saúde.
Poluentes
São seis possíveis poluentes analisados em cada amostra, definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como parâmetro para todos os países do mundo. A concentração de cada um dos contaminantes para se enquadrar em cada classificação de qualidade é definida por uma legislação federal.
Segundo a gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb, Maria Lúcia Guardani, as partículas inaláveis são as que mais preocupam, devido à sua capacidade de se acumular nos alvéolos pulmonares, dependendo do seu tamanho. A medição contempla duas medidas: partículas de 2,5 e 10 micrômetros (micra).
Reprodução/CETESB
Gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb, Maria Lúcia Guardani
As partículas poluentes de 10 micra (PM10) e 2,5 micra (PM2,5) são medidas de material particulado no ar, sendo que 1 micra equivale a um milésimo de milímetro. Quanto menor a partícula, mais profundamente ela consegue penetrar no sistema respiratório e causar danos à saúde.
A nova determinação da OMS, de 2021, diz que 99% dos municípios no mundo não atingem a concentração de poluentes baixa o suficiente para que o ar seja classificado como bom. São valores muito baixos para uma cidade, um país, onde tem uma frota gigantesca, tem indústria, onde tem atividade econômica grande. As emissões são presentes no nosso dia a dia.”Maria Lúcia Guardani, gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb
Partículas com diâmetro de 10 micrômetros são cerca de 7 vezes menores que a largura de um fio de cabelo, normalmente poeira de estradas e construções, pólen e partículas de solo levantadas pelo vento ou pneus dos veículos. Normalmente ficam retidas no nariz, na garganta e nas vias aéreas superiores, causando irritação nos olhos, tosse, rinite e piora de quadros de asma.
As de PM2,5 (2,5 micra) são partículas finas, cerca de 30 vezes menores que um fio de cabelo, que surgem normalmente de fumaça de queimadas, fuligem de escapamentos de veículos (especialmente a diesel), gases industriais transformados em partículas e cinzas. São tão pequenas que conseguem ultrapassar os brônquios, atingir os alvéolos pulmonares e entrar diretamente na corrente sanguínea, podendo provocar doenças cardiovasculares, AVC, câncer de pulmão e problemas respiratórios graves.
Os outros quatro poluentes medidos correspondem a gases:
Monóxido de carbono (CO) - vem da queima incompleta de materiais ricos em carbono, como carvão, gás, lenha ou gasolina.
O dióxido de enxofre (SO₂) - surge da queima de combustíveis fósseis, principalmente o diesel, ou emissão de indústrias.
Dióxido de nitrogênio (NO₂) - também se origina da queima de combustíveis e motores de combustão interna.
Ozônio (O₃) - formado naturalmente quando as moléculas de oxigênio comum (O₂) se quebram por radiação solar ou descargas elétricas.
Segundo Maria Lúcia Guardani, entre os gases, o ozônio é o que causa mais preocupação em São Paulo, devido à gigantesca fonte de emissão no estado. O poluente afeta a mucosa humana, podendo causar tosse, dificuldade para respirar, contração dos músculos das vias aéreas e até inflamações pulmonares.
Equipamentos medidores
Ainda de acordo com a gerente da Divisão de Qualidade do Ar para a companhia em São Paulo, os equipamentos utilizados em todo o estado são de referência a nível mundial. A integração entre a Cetesb e órgãos de outros países os utiliza para, além de entender a qualidade do ar local, rastrear a movimentação de “nuvens” destes gases poluentes internacionalmente.
Os medidores são seis em cada estação: quatro para os gases e dois para as partículas. Maria Lúcia Guardani afirma que todos passam por calibrações e manutenções diárias, garantindo o padrão de medição mundial. Os dados coletados são analisados automaticamente e enviados para a sala telemétrica da Cetesb.
Reprodução/CETESB
Sala central de qualidade doar da Cetesb.
A sala de telemétrica é uma estrutura que funciona como "cérebro" tecnológico da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, responsável por captar, processar e consolidar dados ambientais em tempo real vindos de todo o estado.
Para atingir a precisão correta, todas as 63 estações automáticas do estado possuem um sistema para conferirem sua calibração sozinhas durante a madrugada. Como explica Maria Guardani, em cada medidor é acoplado um cilindro do poluente que ele avalia, e todos os dias uma quantidade específica de cada gás é liberada, aferindo se a medição do equipamento confere com a quantia que recebeu.
Essa calibração diária é necessária, pois as quantidades de cada sólido ou gás são medidas com precisão milimétrica. Cada analisador dentro das estações precisa ficar em temperaturas controladas, com uma boa qualidade de energia, para garantir a exatidão ao identificar microgramas de cada material por metro cúbico de ar.
Estações
Os locais onde os equipamentos medidores da Cetesb ficam trabalhando 24 horas por dia são chamados de Estação de Avaliação da Qualidade do Ar, e ficam espalhados por diferentes pontos da cidade e do estado de São Paulo. Eles enviam dados para aparelhos que mostram a qualidade do ar na região, como os da Paulista, e para a central, gerando os boletins diários para todo o estado.
Reprodução/CETESB
Estação de Avaliação da Qualidade do Ar.
Por meio dos boletins, é possível acompanhar atualizações diárias da qualidade do ar em cada região, além de monitorar a evolução mensal e anual em todo o estado de São Paulo. O mapa é dividido entre os medidores regionais da capital, região metropolitana, interior e litoral.
Diariamente, às 11h, é publicado um boletim de qualidade do ar que resume as condições de poluição do ar nas 24 horas anteriores e fornece uma previsão meteorológica sobre a dispersão dos poluentes nas 24 horas seguintes.
A qualidade do ar em cada estação é definida pelo poluente que está na pior situação. O Estado de Atenção é declarado quando os níveis de poluição do ar chegam à qualidade péssima e há uma previsão de que as condições do tempo não favoreçam a dispersão dos poluentes por pelo menos 24 horas.
Reprodução
Boletim da qualidade do ar em São Paulo emitido em 02/09/2026.
Condições meteorológicas
A condição de qualidade do ar não depende somente da quantidade de emissões, mas, em grande parte, de se os poluentes se mantêm no local ou se deslocam. A gerente de qualidade do ar da Cetesb explica que a quantidade de chuvas no local é um dos fatores que mais interferem no índice.
Segundo Guardani, como o material que mais afeta a saúde geral das pessoas no estado de São Paulo são as partículas sólidas de 2,5 micrômetros, cada chuva “lava o ar” e faz com que esses sólidos retornem para o solo. Por isso, períodos como o inverno costumam registrar piores índices na qualidade do ar devido à baixa quantidade de precipitações e ao tempo entre cada uma.
O inverno também traz um segundo fator para o estado de São Paulo, que são os fortes ventos que atingem a região. Eles ajudam a dispersar partículas criadas em queimadas e obras, deixando-as livres no ar, que as transporta por uma grande área, além de levantar aqueles sólidos microscópicos que já haviam retornado ao solo.
Veículos
Porém, os fortes ventos são somente a segunda maior causa da incidência destas partículas em São Paulo. Na capital e região metropolitana, a grande frota de veículos acaba tendo um papel ainda mais significativo, ao dispersar as partículas que haviam vindo a solo pelas chuvas, além de emitir outros gases poluentes por meio da queima de combustíveis.
Porém, o Brasil possui uma vantagem em relação a outros países, de acordo com Guardani. Como a legislação federal estabelece porcentagens maiores de etanol na gasolina do que o restante do mundo (aproximadamente 30%), a poluição gerada por motores de combustão interna acaba sendo significativamente menor. Conforme a gerente, a presença do biocombustível também faz parte de iniciativas ambientais que favorecem a qualidade do ar brasileiro.
Além dos veículos, que funcionam por meio da queima de combustíveis, o Brasil também tem a vantagem de não precisar de sistema de calefação nas residências devido ao seu clima quente, diferente de outros continentes, onde o aquecimento residencial é mais comum.
“Ao contrário do hemisfério norte, a calefação aqui, quando acontece, não é feita com combustível, o que diminui o particulado que chamamos de ‘carbon black’, esse carvãozinho que é justamente emitido pelo diesel. É um privilégio nosso também não termos carros leves movidos a diesel. Nosso combustível flex, quando queima, tem menor teor desse poluente."Maria Lúcia Guardani, gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb.
Programas
Desde a criação da rede de estações automáticas no estado de São Paulo, projetada no final da década de 70 e implantada no início dos anos 80, a Cetesb utiliza seus dados para mensurar a efetividade de programas de combate à poluição, além de planejar ações específicas quando regiões registram altos índices de algum poluente.
No caso dos gases potencialmente tóxicos emitidos por veículos, existe o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), criado em 1986 pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente a nível nacional, estabelecendo os limites máximos de emissão de poluentes e ruídos para veículos novos.
As motocicletas receberam um programa específico, o Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares (Promot), criado em 2002 para definir um limite e reduzir a emissão de poluentes por motos. Segundo a gerente da qualidade do ar da Cetesb, o programa, que hoje é nacional, foi criado em São Paulo, pois, no passado, as motos chegaram a produzir dez vezes mais quantidade de gases que o emitido pelos carros.
O programa está atualmente em sua quinta fase, chamada de M5, que reduziu drasticamente os limites de monóxido de carbono emitido e tornou obrigatório o diagnóstico de bordo. Isso significa que motos novas precisam se adaptar com tecnologias de injeção de combustíveis mais eficientes, o que altera preços e disponibilidade de alguns motores tradicionais e mais poluentes.
A Companhia ainda faz o monitoramento de poluentes liberados por indústrias por meio da emissão de licenciamento ambiental, exigindo instalação de filtros, lavadores de gases e sistemas de retenção de material particulado para liberar o funcionamento de indústrias. Após a instalação, para garantir o cumprimento dos limites legais, a Cetesb também coleta amostras diretamente nas chaminés para análise.
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