Pedidos de brasileiros por ajuda para deixar Portugal crescem 52%
O número de brasileiros que estão recorrendo a um programa de ajuda para deixar Portugal e retornar ao Brasil cresceu de forma expressiva em 2026. Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), entidade ligada à ONU, mostram que, até julho, 470 brasileiros haviam se inscrito no programa de Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração. A média passou de 44 solicitações mensais em 2025 para 67 neste ano, um crescimento de 52%.
O número chama ainda mais atenção quando analisamos quem está procurando esse auxílio. Dos 606 estrangeiros inscritos no programa em Portugal até julho de 2026, 470 eram brasileiros, aproximadamente 78% do total. O Brasil é a maior comunidade estrangeira residente no país, mas sua participação entre os pedidos de retorno é proporcionalmente muito maior: brasileiros representam cerca de 30% da população imigrante em Portugal, mas respondem por quase 8 em cada 10 inscrições nesse programa.
E não estamos falando apenas de pessoas que decidiram comprar uma passagem e voltar para casa. O programa é direcionado a migrantes que desejam retornar voluntariamente ao país de origem e oferece acompanhamento durante esse processo. A situação migratória, inclusive, não precisa necessariamente estar irregular para que a pessoa procure o programa. Cada caso passa por avaliação.
Quando o pedido é aprovado, a OIM organiza a viagem, compra a passagem aérea seguindo uma rota considerada direta e econômica e entrega 70 euros para despesas no deslocamento. A partida ocorre pelo aeroporto de Lisboa e os participantes são acompanhados pela equipe até o embarque. Dependendo da situação, o programa também pode oferecer outros tipos de assistência ligados à preparação para o retorno e à reintegração no país de origem.
Dos 470 brasileiros que haviam solicitado o auxílio até julho, 210 efetivamente já tinham retornado ao Brasil pelo programa. Em todo o ano de 2025 foram 289 retornos. Ou seja, somente nos primeiros sete meses de 2026, o número de brasileiros que já voltaram com esse apoio correspondia a aproximadamente 73% de todo o volume registrado no ano anterior.
Outro dado ajuda a mostrar que esse fenômeno não envolve apenas jovens que tentaram a vida na Europa e resolveram voltar. Famílias também aparecem nessa realidade. Em 2025, 85 crianças brasileiras retornaram ao país por meio desse apoio, segundo informações divulgadas a partir dos dados da OIM.
Portugal continua sendo um dos principais destinos de brasileiros que decidem construir uma vida fora do país. A língua, os vínculos históricos, a segurança e a facilidade de adaptação cultural ajudam a explicar essa procura. Mas existe um outro lado dessa história que ganhou força nos últimos anos: morar em Portugal ficou caro, principalmente quando se compara o preço da habitação com os rendimentos de parte da população.
É justamente aí que planejamento e expectativa precisam caminhar juntos. Conseguir chegar legalmente a Portugal ou até mesmo conseguir um emprego não significa necessariamente que a conta vai fechar. Aluguel, alimentação, transporte e outras despesas podem consumir uma parcela importante da renda, principalmente para quem chega sem uma reserva financeira suficiente ou encontra condições de trabalho diferentes das que imaginava antes de sair do Brasil.
O aumento dos pedidos de retorno também não deve ser interpretado como uma conclusão de que os brasileiros estejam abandonando Portugal em massa. Os números mostram especificamente o crescimento da procura de pessoas que necessitam de apoio para retornar. É uma parcela pequena diante do tamanho da comunidade brasileira no país, mas suficientemente relevante para revelar situações de vulnerabilidade que também fazem parte da realidade da imigração.
O próprio programa europeu que financia esse tipo de assistência prevê não apenas o pagamento da viagem, mas ações de aconselhamento, apoio psicossocial, assistência durante o retorno e, em determinados casos, medidas para ajudar na reintegração no país de origem. O Brasil recebe atenção específica justamente pelo elevado número de pessoas que regressam de Portugal.
Por isso, a discussão vai muito além de dizer que “o sonho português acabou”. Para milhares de brasileiros, viver em Portugal continua sendo um projeto bem-sucedido. Para outros, porém, a realidade encontrada depois da mudança pode ser muito diferente daquela vendida nas redes sociais.
Mudar de país exige pesquisa sobre salários, custo real de moradia, documentação, oportunidades de emprego e, principalmente, uma reserva financeira capaz de sustentar os primeiros meses. A experiência desses brasileiros deixa um alerta importante: morar na Europa pode ser um sonho, mas transformar esse sonho em um projeto de vida exige muito mais do que comprar uma passagem.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG
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