Brasileiros invadem a Itália: turismo do Brasil cresce em 2026
Quem caminhou por Roma, Veneza, Florença, Milão ou Nápoles ao longo de 2026 provavelmente teve uma sensação bastante familiar: o português brasileiro está por toda parte. Nos restaurantes, estações de trem, hotéis, museus e principais pontos turísticos, encontrar brasileiros deixou de ser uma coincidência. Os números ajudam a confirmar essa percepção. Dados do InfoMercatiEsteri, portal oficial do governo italiano ligado ao Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional, apontaram crescimento de 10% do fluxo turístico proveniente do Brasil nos primeiros quatro meses de 2026 e uma previsão de alta de 15% no acumulado do ano em comparação com 2025. A relação dos brasileiros com a Itália é histórica, impulsionada pelos laços migratórios, pela gastronomia, cultura, arte e ancestralidade, mas os dados deste ano indicam que essa relação está se traduzindo também em uma presença turística cada vez mais expressiva.
Estou na Itália pela quarta vez somente em 2026 e, em todas essas viagens, uma coisa me chamou particularmente a atenção: a quantidade de brasileiros. Viajo profissionalmente há muitos anos e acompanho de perto o comportamento do turista brasileiro no exterior, mas neste ano essa presença parece ainda mais evidente. Nesta última passagem, percorri novamente cidades como Nápoles, Roma, Florença, Veneza e Milão e, em praticamente todos os lugares, encontrei brasileiros. É claro que uma percepção pessoal não substitui uma estatística, mas, neste caso, ela encontra respaldo nos números oficiais e em outros indicadores do mercado de turismo.
O crescimento não é exclusivamente brasileiro. A Itália vive um ano de expansão da demanda internacional. Segundo o Istat, instituto oficial de estatísticas do país, o primeiro trimestre de 2026 registrou 23 milhões de chegadas e 71,6 milhões de pernoites em meios de hospedagem. Na comparação com o mesmo período de 2025, as chegadas aumentaram 4,2% e as presenças, indicador que contabiliza as noites passadas pelos hóspedes nos estabelecimentos, cresceram 7,5%. Entre os estrangeiros, o movimento foi ainda mais expressivo: as presenças avançaram 12,3% no período e já representavam 54,6% de todas as noites registradas no país. No segundo trimestre, a participação internacional continuou predominante, respondendo por 61,6% das presenças, com crescimento de 4,6% em relação a 2025.
Os dados mais recentes sobre gastos também mostram a força desse movimento. Relatório da Nexi divulgado em outubro aponta que turistas estrangeiros movimentaram 16,2 bilhões de euros na Itália entre janeiro e agosto de 2026, crescimento de 5% sobre o mesmo período do ano anterior. O estudo cita especificamente o Brasil entre os mercados que apresentaram crescimento de presença no país, ao lado de Hungria, China, Canadá e México. A Banca d'Italia também registrou expansão das receitas provenientes do turismo internacional: somente em junho, os visitantes estrangeiros gastaram 6,8 bilhões de euros na Itália, 4,8% a mais do que no mesmo mês de 2025.
Outro levantamento ajuda a dimensionar especificamente o interesse dos brasileiros pela Itália. Dados da plataforma Civitatis apontam que as reservas de passeios e experiências no país feitas por brasileiros cresceram 40% entre janeiro e agosto de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025. Dentro da plataforma, a Itália passou à frente de destinos como França, Argentina e Espanha. Em julho, mês tradicionalmente forte para as viagens internacionais dos brasileiros, o avanço foi ainda mais expressivo: houve crescimento de 51% nas reservas de atividades e de 71% no número de viajantes brasileiros para a Itália em relação a julho do ano anterior. É importante ressaltar que esses percentuais se referem aos clientes e às reservas da própria plataforma, portanto não podem ser interpretados como crescimento de 71% no total de brasileiros que entraram no país. Ainda assim, são indicadores importantes do tamanho da procura.
E há outro movimento interessante: o brasileiro parece estar ampliando seu mapa dentro da Itália. Roma continua sendo uma das grandes portas de entrada e um dos principais destinos, mas cidades como Florença, Milão, Nápoles, Veneza e Sorrento vêm ganhando espaço nos roteiros. Em um levantamento referente ao feriado de outubro, por exemplo, a Civitatis registrou crescimento de 38,2% no número de viajantes brasileiros com atividades reservadas na Itália em relação ao mesmo período de 2025. Roma e Milão tiveram alta de 44,7%, enquanto Florença cresceu 34,4%. Mais uma vez, são números referentes às reservas da plataforma, mas que ajudam a identificar uma tendência de diversificação dos destinos escolhidos pelos brasileiros.
Minha percepção de que há brasileiros por todos os lados ganhou ainda mais força depois que publiquei um vídeo sobre o assunto no meu Instagram. Em poucas horas, dezenas de pessoas que viajaram para a Itália em 2026 começaram a relatar experiências semelhantes. Uma seguidora que passou 15 dias em agosto entre Roma, Veneza, Costa Amalfitana e Maranello contou que encontrou tantos brasileiros que chegou a se sentir “em casa”. Outro viajante, que estava em Florença e seguiria para Veneza, relatou ter encontrado muitos brasileiros nos pontos turísticos de Roma. Houve ainda quem tivesse passado mais de 20 dias pelo país em outubro e já planejasse voltar no próximo ano. Os comentários não constituem, evidentemente, uma pesquisa estatística, mas funcionam como uma fotografia espontânea da percepção de quem efetivamente esteve viajando pelo país neste ano.
Uma das respostas resumiu de maneira bem-humorada o fenômeno: “Itália está igual à Praia do Oi: você olha para o lado e tem um brasileiro”. Outro relato foi ainda além da Itália e afirmou ter encontrado grande quantidade de brasileiros também em Budapeste, Bratislava, Viena, Praga e outras cidades europeias. São depoimentos individuais, mas que aparecem justamente em um momento em que diferentes indicadores apontam para o fortalecimento das viagens internacionais e, particularmente, para o interesse do brasileiro pela Itália.
O próprio turismo italiano atravessa um período de números elevados. Segundo o Ministério do Turismo da Itália, somente nos meses de junho, julho e agosto foram contabilizadas mais de 276 milhões de presenças turísticas no país, 5,5 milhões acima do registrado no mesmo período de 2025. Regiões que concentram alguns dos destinos mais procurados pelos brasileiros também apresentaram forte desempenho na ocupação turística durante o verão, entre elas Veneto, onde está Veneza, Toscana, onde está Florença, Lazio, onde fica Roma, Lombardia, onde está Milão, e Campania, região de Nápoles e da Costa Amalfitana.
Depois de quatro viagens à Itália somente neste ano, os números ajudam a explicar aquilo que meus olhos já vinham percebendo nas ruas: nunca encontrei tantos brasileiros viajando pelo país. Do português ouvido nas filas do Vaticano às conversas dentro dos trens, passando pelos restaurantes de Florença, pelas ruas de Veneza e pelo movimento de Nápoles, o Brasil parece cada vez mais presente na paisagem turística italiana. A Itália sempre esteve entre os destinos europeus mais desejados pelos brasileiros, mas 2026 mostra que essa relação ganhou ainda mais força. E, se a projeção oficial de crescimento de 15% para o fluxo brasileiro se confirmar até dezembro, este poderá terminar como um dos anos mais representativos dessa aproximação recente entre os viajantes do Brasil e um de seus destinos favoritos na Europa.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG
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