O ator e protagonista de "O Agente Secreto", Wagner Moura
Para desespero dos patriotas que não gostam do Brasil, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi indicado a quatro estatuetas do Oscar 2026, que acontece em fevereiro.
Até lá vai dar tempo de os torcedores – digo, os espectadores – conferir e analisar os concorrentes só pra secar. Mais ou menos como fazemos no futebol. Em ano de Copa do Mundo, o Brasil hoje está mais perto do bi do Oscar do que do hexa. Vai em busca da manutenção do título de língua estrangeira vencido no ano passado por “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. Não à toa, outro filme sobre os horrores da ditadura, exibido nos Estados Unidos enquanto o presidente local brinca de dono do mundo.
O mundo quer saber como o Brasil enfrentou tiranos do tipo. Os de “O Agente Secreto” estão por toda parte: no guarda da esquina, no IML, na seção de documentação, na delegacia, nas empresas que patrocinaram o regime, nos esquadrões da morte. O óleo dessa engrenagem é a corrupção.
Os principais adversários nesta categoria são o norugueguês “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, e o iraniano “Foi apenas um acidente”, de Jafar Panahi.
A parada é duríssima. Mais que a do ano passado. Trier é um dos herdeiros mais dignos da escola Ingmar Bergman, com retratos de dramas humanos e afetivos que ecoam o mestre sueco e não deixam (muito) a desejar. Já Panahi é um dos grandes cronistas de um regime hoje em colapso.
Nessa chave Brasil x Irã x Noruega não tem favorito.
O longa de Kleber Mendonça Filho concorre ainda nas categorias melhor filme, melhor ator (feito inédito de Wagner Moura) e melhor elenco.
Esta última é a grande novidade deste ano. E é justamente a que o Brasil pode fazer frente a qualquer um. Não é todo mundo que pode se gabar de contar com uma reunião de atores que vai de Wagner Moura a Tânia Maria (dona Sebastiana, Oscar de maior carisma na minha premiação), passando por Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Gabriel Leone, entre tantos.
Se ainda assim o Brasil não levar esta estatueta, é o caso de Lula (PT) romper relações com os anfitriões e decretar um tarifaço considerável sobre filmes norte-americanos. É o mínimo.
Wagner Moura chega com moral depois de ter levado o Globo de Ouro de Melhor Ator.
Mas no Oscar o jogo é outro, com outro juri, outro lobby. O ator baiano vai encarar de frente rivais como Leonardo di Caprio e Michael B. Jordan. De novo, não tem favorito ali.
Na categoria principal, dá para dizer que “O Agente Secreto” é o azarão. Mas o sul-coreano “Parasita”, retrato implacável da luta de classes no século 21 de Bong Joon-ho (admirador, aliás, de Mendonça Filho), também era e mostrou, em 2020, que dá para vencer os gigantes de língua inglesa. Tudo depende do espírito do tempo. E o atual é mais tiro, porrada e bomba do que declaração de amor.
No limite, dá para dizer que sete dos últimos dez filmes vencedores tinham temática política: Oppenheimer (2024), Nomadland (2021), Parasita (2020), Green Book (2019), A Forma da Água (2018), Moonight (2017) e Spotlight (2016).
O cálculo das probabilidades aponta que tem jogo para o longa brasileiro, que já virou ícone pop com camisetas e ecobags e homenagens dos times de Recife ao conterrâneo Mendonça Filho. Vai ser um longo mês. E o mais pernambucano dos Carnavais.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
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