O que se viu ontem foi um Rodrigo Bocardi tentando explicar sua saída do SBT, mas produzindo um efeito contrário. Ao justificar sua atuação junto a prefeituras, o jornalista acabou reacendendo um debate que acompanha a profissão há décadas: até que ponto atividades privadas podem coexistir com a independência exigida do exercício jornalístico? Sua defesa não encerrou a discussão. Pelo contrário, reforçou a percepção de que a fronteira entre jornalismo e interesses comerciais permanecem sendo rompidos desde sua demissão por justa causa na TV Globo.
Outro ponto que chamou atenção foi a tentativa de associar sua saída do SBT às revelações envolvendo o Banco Master. Mentira feia. Mentira cínica. A explicação não procede, porque as informações sobre a relação entre o Master e Fábio Faria já circulavam publicamente havia meses antes de sua contratação. Esses prints já haviam sido divulgados em janeiro. Nenhuma surpresa. Só voltaram à tona agora. Também surpreendeu o fato de Bocardi fazer essas declarações justamente na Band, emissora concorrente, expondo o antigo empregador em menos de 24 horas após sua demissão. Ainda que tenha o direito de apresentar sua versão, a forma escolhida inevitavelmente abriu espaço para críticas sobre postura profissional e falta de ética. Não por acaso, levou uma nota de repúdio da Band por ter se aproveitado de uma situação ao vivo para atacar o SBT. Não à toa foi tirado do ar com a mesma velocidade que foi chutado do SBT.
Bocardi deixou a Globo após uma demissão motivada por questões de compliance, conforme informado oficialmente pela emissora à época, anunciou que buscaria medidas judiciais e, até onde se tornou público, mais uma histórinha barata para boi dormir, pois nunca aconteceu. Agora, sua passagem pelo SBT termina em meio a uma nova controvérsia, na verdade a mesma ocorrida na Globo, seguida por uma nota pública de repúdio da Band em razão de suas declarações rasteiras e que não batem com a realidade dos fatos. Somadas, essas três situações, em três grandes emissoras, alimentam um desgaste que dificilmente pode ser tratado como mera coincidência.
A maior armadilha da soberba é convencer alguém de que nunca precisa rever os próprios passos. É justamente a soberba que transforma justificativas em verdades absolutas, críticas em perseguições e sucessivos desgastes em culpa exclusiva dos outros. Não é. Quando um profissional deixa uma emissora sob justa causa com forte controvérsia ética, e não dura nem dois meses em outra, pelos mesmos motivos e denúncias, talvez o problema já não esteja apenas nas empresas pelas quais passou, mas também na forma como escolhe conduzir sua própria trajetória.
No jornalismo, credibilidade é construída com discrição, coerência e responsabilidade. Quem acredita estar acima desses princípios acaba descobrindo, mais cedo ou mais tarde, que a maior queda costuma ser justamente a provocada, torno a dizer, pelo próprio excesso de soberba. E, aí, vovô já dizia: a soberba precede a queda. E que, um dia, Gloria Vanique ainda possa ser beatificada...
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG
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